O Sábado Bíblico

Por domingo, 27 novembro, 2011

A palavra sábado vem do hebraico, Shabbãth, ‘descanso’ da raiz; Shãbhath, ‘cessar’, ‘descansar’. Na Septuaginta, é traduzido pela palavra sábbaton, “sábado”. Aponta para o sétimo dia de cada semana, que os israelitas dedicavam ao descanso de todas as atividades físicas da semana, a começar ao por do sol da sexta feira e terminando no por do sol do sábado.

No relato da criação não encontramos a palavra sábado, mas é encontrada a raiz de onde se deriva tal vocábulo (Shãbhath): “E, havendo Deus acabado no dia sétimo a sua obra, que tinha feito, descansou no sétimo dia de toda a sua obra, que tinha feito. E abençoou Deus o dia sétimo e o santificou; porque nele descansou de toda a sua obra, que Deus criara e fizera” (Gn. 2:2,3). Deus criou todo o universo em seis dias; no sétimo descansou de Sua obra. A linguagem apresentada em Gênesis é antropomórfica, pois Deus não é um trabalhador que necessita de descanso, porém foi deixado como padrão para o homem seguir, pois precisa de um dia para o descanso de todas as labutas diárias e tomar alento, conforme a forte linguagem usada por Deus em Êxodo 31:17, com o propósito de ensinar ao homem tal necessidade: “… em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, e, ao sétimo dia, descansou, e restaurou-se”.

No tempo dos patriarcas não existe qualquer menção de tal observância, embora Deus tivesse abençoado o dia sétimo, por ocasião da criação.

A primeira menção da palavra sábado foi no deserto por ocasião do recolhimento do maná, conforme o registro de Êxodo 16:23-30: “E ele disse-lhes: Isto é o que o SENHOR tem dito: Amanhã é repouso, o santo sábado do SENHOR; o que quiserdes cozer no forno, cozei-o; e o que quiserdes cozer em água, cozei-o em água; e tudo o que sobejar ponde em guarda para vós até amanhã. E guardaram-no até pela manhã, como Moisés tinha ordenado; e não cheirou mal, nem nele houve algum bicho. Então, disse Moisés: Comei-o hoje, porquanto hoje é o sábado do SENHOR; hoje não o achareis no campo. Seis dias o colhereis, mas o sétimo dia é o sábado; nele não haverá. E aconteceu, ao sétimo dia, que alguns do povo saíram para colher, mas não o acharam. Então, disse o SENHOR a Moisés: Até quando recusareis guardar os meus mandamentos e as minhas leis?”.

Na Aliança da Lei, o sábado foi instituído como um dos mandamentos para a nação de Israel: “Lembra-te do dia do sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra, mas o sétimo dia é o sábado do SENHOR, teu Deus; não farás nenhuma obra, nem tu, nem o teu filho, nem a tua filha, nem o teu servo, nem a tua serva, nem o teu animal, nem o teu estrangeiro que está dentro das tuas portas. Porque em seis dias fez o SENHOR os céus e a terra, o mar e tudo que neles e ao sétimo dia descansou; portanto, abençoou o SENHOR o dia do sábado e o santificou” (Êxodo 20:8-11).

Conforme o registro de Êxodo 31:13, o sábado era o mandamento que servia para distinguir a nação de Israel de todos os demais povos: “Tu, pois, fala aos filhos de Israel, dizendo: Certamente guardareis meus sábados, porquanto isso é um sinal entre mim e vós nas vossas gerações; para que saibais que eu sou o SENHOR, que vos santifica”.

Para a nação de Israel, o sábado não era um dia de total inatividade, pois os sacerdotes continuavam nos seus serviços normais. Aos sábados havia a mudança dos pães da proposição (Lv. 24:8); um sacrifício especial (Nm. 28:9,10); o rito da circuncisão (Lv. 12:3; cf. João 7:22); a convocação sabática (Lv. 23:1-3). Era um dia reservado para o descanso e a adoração ao Senhor.

Nos dias do profeta Isaias, o sábado era observado formalmente (Is. 1:12,13). Outros profetas repreenderam a nação de Israel acerca da violação do sábado (Jr. 17:21,22; Ez. 22:8; Am. 8:4). Foi atribuída a destruição de Jerusalém e o cativeiro dos judeus, em parte, à violação da não observância da guarda do dia de sábado (Jr. 17:27; Ez. 20:23,24).

Após as reformas de Neemias e Esdras, no período intertestamentário, os seus sucessores, os escribas, regularam e restringiram a observância do sábado. No tempo dos Macabeus, alguns deles preferiram morrer a profanar o sábado. Com o surgimento das sinagogas, a vida religiosa do judaísmo centralizou-se nelas, não somente em lugares distantes de Israel, mas até paralelamente ao templo de Jerusalém existiam sinagogas onde, nos sábados, a comunidade judaica se reunia para o estudo do Tanach (Antigo Testamento) e a adoração a Deus.

Quando Jesus foi introduzido no mundo dos homens, o verdadeiro sentido do sábado havia sido obscurecido pelos acréscimos e restrições dos escribas. A observância se tornara formal, sem considerar as necessidades humanas. Jesus chocou-se frontalmente com as autoridades religiosas de Israel por causa do sábado e a reivindicação de sua deidade: “E, por essa causa, os judeus perseguiram Jesus e procuravam matá-lo, porque fazia essas coisas no sábado. E Jesus lhes respondeu: Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também. Por isso, pois, os judeus ainda mais procuravam matá-lo, porque não só quebrantava o sábado, mas também dizia que Deus era seu próprio Pai, fazendo-se igual a Deus” (João 5:16,18).

O apóstolo Paulo frequentava os cultos nas sinagogas em dia de sábado, pois era o dia normal de reuniões dos judeus (At. 2:46; 5:42; 9:20; 13:14; 14:1; 17:1,2; 18:4). Os gentios que se convertiam eram assediados pelos judaizantes com o intuito de circuncidá-los e obriga-los a guardar as leis judaicas. Foi essa situação que provocou o grande Concílio de Jerusalém (At. 15:1-32). O consenso final foi: “Na verdade, pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor mais encargo algum, senão estas coisas necessárias: Que vos abstenhais das coisas sacrificadas aos ídolos, e do sangue, e da carne sufocada, e da fornicação; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Bem vos vá” (Atos 15:29,30). Os gentios que se convertiam não estavam obrigados a observar as leis judaicas e a adotar o cerimonial judaico, a fim de viverem uma vida de justiça cristã. A Igreja dos gálatas que estava enveredando pelo caminho da observância da lei mosaica foi severamente repreendida pelo apóstolo Paulo: “Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé? Sois vós tão insensatos que, tendo começado pelo Espírito, acabeis agora pela carne? Será em vão que tenhais padecido tanto? Se é que isso também foi em vão. Aquele, pois, que vos dá o Espírito e que opera maravilhas entre vós o faz pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gl. 3:2,3). Paulo considerava a lei como um jugo de servidão, da qual os crentes são libertos por Cristo: “Estai, pois, firmes na liberdade com que Cristo nos libertou e não torneis a meter-vos debaixo do jugo da servidão” (Gl. 5:1). Algo abolido por Cristo na Nova Aliança: “Havendo riscado a cédula que era contra nós nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária, e a tirou do meio de nós, cravando-a na cruz” (Cl. 2:14). O sábado é mencionado por Paulo juntamente com as festividades e luas novas, como “sombras das coisas futuras”: “Portanto, ninguém vos julgue pelo comer, ou pelo beber, ou por causa dos dias de festa, ou da lua nova, ou dos sábados, que são sombras das coisas futuras, mas o corpo é de Cristo” (Cl. 2:16,17). Para o apóstolo Paulo, o crente que estava querendo guardar dias, meses, anos e tudo que fazia parte da legislação mosaica estava querendo se escravizar a “…rudimentos fracos e pobres”. Confira: “Mas agora, conhecendo a Deus ou, antes, sendo conhecidos de Deus, como tornais outra vez a esses rudimentos fracos e pobres, aos quais de novo quereis servir? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós que haja eu trabalhado em vão para convosco” (Gl. 4:9,10). “Se, pois, estais mortos com Cristo quanto aos rudimentos do mundo, por que vos carregam ainda de ordenanças, como se vivêsseis no mundo” (Cl. 2:20). A observância de dias e a abstinência de certos alimentos são características de quem é fraco na fé: “Ora, quanto ao que está enfermo na fé, recebei-o, não em contendas sobre dúvidas. Porque um crê que de tudo se pode comer, e outro, que é fraco, come legumes. O que come não despreze o que não come; e o que não come não julgue o que come; porque Deus o recebeu por seu. Quem és tu que julgas o servo alheio? Para seu próprio senhor ele está em pé ou cai; mas estará firme, porque poderoso é Deus para o firmar. Um faz diferença entre dia e dia, mas outro julga iguais todos os dias. Cada um esteja inteiramente seguro em seu próprio ânimo” (Rm. 14:1-5). O Espírito Santo através de Paulo, relativizou, igualou o sábado com os demais dias da semana. A desvalorização deste dia no coração do judeu convertido a Cristo seria um processo lento devido a formação religiosa proveniente da Lei mosaica, pois é bom lembrar de que a Igreja primitiva era formada de judeus e gentios convertidos a Cristo Jesus.

Os primitivos cristãos passaram a reunir-se no primeiro dia da semana, devido a ressurreição de Jesus (Mc. 16:2 ss). Tinha no primeiro dia da semana o seu dia normal de reuniões: “No primeiro dia da semana, ajuntando-se os discípulos para partir o pão, Paulo, que havia de partir no dia seguinte, falava com eles; e alargou a prática até a meia-noite” (At. 20:7). “No primeiro dia da semana, cada um de vós ponha de parte o que puder ajuntar, conforme a sua prosperidade, para que se não façam as coletas quando eu chegar” (I Co. 16:2).

A observância do sábado no Novo Testamento jamais é ordenada, porém os demais nove mandamentos da lei mosaica são constantemente reiterados, tendo o cumprimento de toda a lei através da observância do amor: “A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás, e, se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor. A ninguém devais coisa alguma, a não ser o amor com que vos ameis uns aos outros; porque quem ama aos outros cumpriu a lei. Com efeito: Não adulterarás, não matarás, não furtarás, não darás falso testemunho, não cobiçarás, e, se há algum outro mandamento, tudo nesta palavra se resume: Amarás ao teu próximo como a ti mesmo. O amor não faz mal ao próximo; de sorte que o cumprimento da lei é o amor” (Rm. 13:8-10).

Um conhecido grupo defende a guarda do sábado pelos cristãos asseverando que o domingo é o sinal da besta. As Escrituras não dizem como será tal sinal; e, em segundo lugar, o anticristo ainda não surgiu no cenário mundial para adquirir autoridade mundial, isso acontecerá antes da segunda vinda de Cristo. As Escrituras não ensinam que o anticristo fará a mudança do dia de descanso do sábado para o domingo. Dizem que o dia de domingo foi introduzido pelo catolicismo romano, porém tal afirmativa não tem fundamento, pois não existe nenhuma prova histórica a esse respeito. Se porventura houvesse alguma mudança comprovada a esse respeito, isso nada provaria no sentido de que devemos retornar à observância do sábado judaico, pois as Escrituras ensinam claramente que o sábado é sinal do pacto entre Deus e Israel, jamais sinal entre Deus e a Igreja. Israel estava sob a lei recebida no Sinai, porém a Igreja está sob a Graça de Jesus adquirida na cruz do Calvário. O Novo Testamento também não ensina que devamos guardar o domingo, como se este houvesse substituído o sábado judaico, pois para Deus todos os dias são abençoados por ele.

Todos os países têm adotado o calendário gregoriano para uso civil. Neste calendário os dias da semana são dispostos na seguinte forma: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, quinta-feira, sexta-feira, sábado e domingo. No calendário judaico, os judeus não davam nomes aos dias da semana, mas eram designados como primeiro, segundo, terceiro, quarto, quinto, sexto e sétimo dia o dia de descanso (sábado). Conforme o exposto, o calendário gregoriano nomeia os dias da semana e o judaico não. O dia em que alguns grupos insistem na guarda obrigatória não é o sábado bíblico, porém um dia nomeado de sábado. Devido à tradição dos cristãos de se reunirem no primeiro dia da semana; este primeiro dia foi nomeado no calendário gregoriano de domingo (do latim: Dies dominica “dia do Senhor”). Teológica e morfologicamente, o sábado ordenado por Deus a Israel não tem nenhum vínculo com o dia nomeado de sábado da nossa folhinha gregoriana. Estamos debaixo da graça, sob o sangue de Jesus Cristo, por isso não nos colocaremos sob outro fundamento.

O domingo foi instituído pela lei do nosso país como o dia de descanso do trabalho secular (Rm. 13:1), contudo é para a Igreja um dia voltado inteiramente para o trabalho cristão e considerado pelo Senhor como o Seu dia. Se porventura um cristão que, por força do seu trabalho secular, tiver de trabalhar no dia de domingo, e a sua folga de trabalho cair em qualquer dia da semana, esse dia será o seu sábado (descanso). Seis dias trabalhou e o sétimo dia é o descanso do seu trabalho (Êx. 20:8-11). Para nós, os servos de Deus, sob a graça de Jesus, todos os dias são iguais. Não podemos fazer do benefício de Deus para com o gênero humano um motivo de confusão. Vejamos a resposta de Jesus aos fariseus: “E aconteceu que, passando ele num sábado pelas searas, os seus discípulos, caminhando, começaram a colher espigas. E os fariseus lhe disseram: Vês? Por que fazem no sábado o que não é lícito? Mas ele disse-lhes: Nunca lestes o que fez Davi, quando estava em necessidade e teve fome, ele e os que com ele estavam? Como entrou na Casa de Deus, no tempo de Abiatar, sumo sacerdote, e comeu os pães da proposição, dos quais não era lícito comer senão aos sacerdotes, dando também aos que com ele estavam? E disse-lhes: O sábado foi feito por causa do homem, e não o homem por causa do sábado. Assim, o Filho do Homem até do sábado é senhor” (Marcos 2:23-28).

Para finalizar, o Novo Testamento não proíbe ninguém de se reunir em qualquer dia da semana ou observar a sua guarda (Rm. 14:5,6). Aquele que quiser guardar o sábado da folhinha gregoriana, como qualquer outro dia, que o faça para a glória de Deus; conquanto que se preserve a totalidade do mandamento, ou seja, que trabalhe não somente os cinco dias da semana, porém os seis dias. A guarda do sábado também não pode ser instituída como uma regra de salvação, pois anularia a eficácia do sacrifício de Jesus na cruz do Calvário: “Pela graça sois salvos, por meio da fé; isto não vem de vós; é dom de Deus. Não vem das obras, para que ninguém se glorie” (Efésios 2:8,9). Com todas essas recomendações façamos a Obra de Deus de maneira que venhamos a agradar o coração de Deus sem criarmos nada além do que já está escrito. Amém!

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Pr. Adelemir Garcia Esteves

Pastor, Jornalista, Professor de Teologia, Hebraico Bíblico e Conferencista.
“Temos a grande responsabilidade de refletirmos toda a glória de Deus.”
(II Co. 3:18)

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